Quando assistimos ao noticiário e vemos reportagens sobre nossos presídios superlotados, cheios de problemas na carceragem e com sérios problemas de manutenção e limpeza, sequer podemos imaginar que há pouco mais de um século atrás a realidade era completamente diferente.

Assaltos, crimes e estupros aconteciam tal qual acontecem nos dias de hoje, porém a recuperação de um criminoso para devolvê-lo à sociedade era exemplar, especialmente no sistema prisional paulista. O sistema de nossa “Casa de Regeneração” era tão eficiente, que chefes de polícia vinham de todos os países do mundo para conhecer nossos procedimentos e métodos.

Visita do chefe de polícia de Nova York em 1924
Visita do chefe de polícia de Nova York em 1924

A guinada de um sistema prisional comum para um sistema modelo e admirado mundialmente se deu em 1911, com o lançamento da pedra fundamental do que viria a ser a futura Penitenciária de São Paulo, na então despovoada região do Carandiru, região norte da capital paulista. Idealizado pelo então Presidente do Estado, Albuquerque Lins, a construção do presídio levaria 9 anos para ser concluída e finalmente inaugurada.

Depois de anos de uma obra que andava e parava, em 21 de abril de 1920 foi finalmente inaugurada a tão esperada Penitenciária de São Paulo:

Entrada da penitenciária (clique para ampliar)
Entrada da penitenciária

O complexo prisional teve sua construção executada pelo Escritório Técnico Ramos de Azevedo, na época o grande construtor paulista(*1).

Um presídio moderno e modelo, não era algo exatamente barato de se construir. Apesar de seu custo ter sido orçado em 7.000 contos de réis, valores considerados à época bastante altos para a construção de um presídio, geralmente orçados em 1.000 contos, o custo total atingiu 14.000 contos de réis, bastante extravagante para a época. Apesar disso, com o presídio modelo pronto, poucas foram as críticas ao custo final.

Presos em trabalho na área externa. Ao fundo a Avenida Ataliba Leonel (clique para ampliar)
Presos trabalham na área externa. No lado esquerdo vemos a atual Avenida Ataliba Leonel

Após sua inauguração, a eficiência da Penitenciária de São Paulo (ou também Casa de Regeneração) correu o mundo, atraindo autoridades, estudantes de direito e personalidades de todas as localidades para conhecer o presídio. As mais notáveis visitas foram de Claude Lévi-Strauss e Stefan Zweig, este último escreveu em um de seus livros que “a higiene e a limpeza do presídio eram exemplares“.

Na Penitenciária de São Paulo quase não haviam funcionários, eles eram em um número bastante reduzido se comparado ao número de detentos. Mas não haviam motins ou rebeliões. Tudo era feito pelos prisioneiros, que produziam sua comida, cuidavam do pomar, fabricavam o próprio pão, faziam seus próprios calçados e até faziam a enfermagem, orientados por médicos e outros profissionais. Nos horários livres podiam estudar na escola do presídio, ir a missa na capela e até aprender artes plásticas.

Nas imagens que seguirão abaixo, vocês irão viajar pelas dependências da Penitenciária de São Paulo, separadas pelos vários setores e dependências do complexo:

ÁREAS INTERNAS DIVERSAS:

Interior de um dos pavilhões (clique para ampliar).
Interior de um dos pavilhões

 

Galeria
Galeria
Hall da entrada principal
Hall da entrada principal
Área da administração do presídio
Área da administração do presídio

ALFAIATARIA:

Alfaiataria, seção de corte (clique na foto para ampliar).
Alfaiataria, seção de corte

 

Alfaiataria, setor de costura.
Alfaiataria, setor de costura.

ALMOXARIFADO:

Almoxarifado (clique para ampliar)
Almoxarifado

 

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AUDITÓRIO:

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CAPELA:

São Paulo Antiga

CELA INDIVIDUAL:

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CENTRAL TELEFÔNICA:

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COZINHA:

Visão externa da cozinha (clique para ampliar).

 

Caldeirões da cozinha

SETOR EDUCACIONAL:

Presidiário na sala de aula (clique para ampliar).

 

Escola de desenho (clique para ampliar)
Escola de desenho

HOSPITAL:

Vista geral do hospital (clique para ampliar)
Vista geral do hospital

 

Setor de atendimento dentário (clique para ampliar).
Setor de atendimento dentário

 

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Laboratório de análises clínicas (clique para ampliar).
Laboratório de análises clínicas

LAVANDERIA:

Lavanderia (clique na foto para ampliar).
Lavanderia

 

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PADARIA:

Visão externa da padaria (clique para ampliar).
Visão externa da padaria

 

Fornos (clique para ampliar).
Fornos

 

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SAPATARIA:

Fábrica de calçados (clique para ampliar).
Fábrica de calçados

 

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SERRARIA:

Visão geral da serraria (clique para ampliar)
Visão geral da serraria

DEMAIS DEPENDÊNCIAS E VISÃO GERAL DO PRESÍDIO:

A primeira fotografia mostra o prédio administrativo. No frontão, na porção mais superior há os seguintes dizeres: “Aqui, o trabalho, a disciplina e a bondade, resgatam a falta cometida e reconduzem o homem a comunhão social”.

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Parque interno do presídio (clique na foto para ampliar).
Parque interno do presídio

 

Pomar do presídio (clique na foto para ampliar).
Pomar do presídio

Para encerrar o artigo a foto abaixo mostra alguns dos presos da Penitenciária de São Paulo trabalhando na lavoura da instituição. O uniforme dos presidiários também era uma inovação para a época. Durante o período que ficavam nas dependências internas utilizavam uniforme na cor cáqui, para que não fossem submetidos a constrangimentos ou humilhações. Apenas quando exerciam trabalhos fora do presídio (como na lavoura ou no ramal do Trem da Cantareira, por exemplo) é que usavam roupas listradas, para poderem ser avistados de longe pelos guardas do presídio.

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Por pelo menos duas décadas a Penitenciária de São Paulo seguiu com um grande exemplo de um sistema prisional eficiente, exemplar e que realmente era capaz de recuperar e devolver para a sociedade a grande maioria daqueles que cometeram delitos.  Vendo aos olhos de hoje fica até difícil crer que tudo isso que vimos nestas quarenta fotografias foi um dia real.

Agora fica a pergunta no ar: Em que momento de nossa história perdemos a capacidade de administrar nossos presídios de uma maneira assim tão exemplar ? Comente!

(*1) – Não conseguimos um consenso sobre quem seria o real arquiteto do complexo prisional. Alguns documentos apontam para o projeto ser de Giordano Petry, um arquiteto francês que teria se inspirado no modelo do “Centre Pénitentiaire de Fresnes” na França. Outras fontes apontam para Samuel Stockler das Neves e por fim outras atribuem a Ramos de Azevedo. A pesquisa segue em andamento.

Fotos: Museu Penitenciário Paulista

FICHA TÉCNICA:
Penitenciária de São Paulo (Casa de Regeneração)
Início da obra: 1911
Inauguração: 20/04/1920
Execução da obra: Escritório Técnico Ramos de Azevedo
Custo: 14.000 contos de Réis