segunda-feira ,18 dezembro 2017
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O FIM !? – MARC SOUZA

Naquele momento, um filme passou pela sua cabeça. Um filme, que, aparentemente, chegava ao fim.

É interessante que, em segundos, toda a sua vida foi passada a limpo. Suas alegrias e decepções. Seus medos e suas angústias.

De repente, um dos seus maiores medos estava se tornando realidade: Sair de casa para o trabalho, e, não retornar.

Foram anos de medo e angústia, anos orando, pedindo a Deus para que lhe protegesse, para que, lhe livrasse daquela situação que estava vivendo naquele momento.

O que fazer naquela situação? Entregar-se passivamente, tal qual um animal diante do seu algoz, ou lutar com todas as forças buscando meios de sobreviver diante daquela situação em que a morte, parecia-lhe, era iminente?

A rebelião estava instalada.

Os presos queriam que seus direitos fossem respeitados: Melhores condições para o cumprimento da pena; Fim da superpopulação carcerária; Agilidade nos julgamentos de processos e concessão de benefícios; Transferência para outras unidades prisionais.

Quanto a ele, estava ali, abandonado à própria sorte, jogado no interior de uma cela suja, sentindo-se um boi de piranha, sangrando até a morte. Pego de refém quando fora liberar os sentenciados para o banho de sol, fora ameaçado, humilhado, agredido. Muito agredido. Seu corpo doía tanto que imaginava que aquele seria o seu fim.

Vez ou outra, um sentenciado entrava na cela, e, com estiletes improvisados ameaçavam a sua vida. Passavam o estilete pelo seu pescoço como se fosse cortá-lo, ameaçavam estocadas, chutavam-no, batiam-no. O ódio que vira nos olhos daquelas pessoas deixava-o ainda mais desesperado.

Parecia que ele era o responsável por todas as mazelas que aquelas pessoas estavam vivendo. Era como se ele não quisesse, também, uma unidade prisional sem superlotação, uma unidade prisional com melhores condições de trabalho e sobrevivência aos sentenciados ali recolhidos. Era como se ele fosse o responsável pela morosidade do poder judiciário.

Ouvia do lado de fora da cela, gritos. O medo, era quase palpável, a tensão era insuportável.

Então, sem conseguir evitar, começou a imaginar como seria a sua morte, começou a imaginar a sua família sem ele. Sua esposa. Seu filho.

“Que merda” – pensou. “Por que passar por aquela situação? O que fizera para merecer aquilo tudo?” Sempre fizera o seu trabalho da melhor maneira possível. Sempre foi um exemplo de pessoa e profissional, e agora, estava ali, com a vida por um fio, sendo acusado e responsável, por algo que sequer poderia mudar. Naquele momento ele era a figura do Estado negligenciador. A figura de um sistema omisso, moroso às vezes inerte causador do caos penitenciário que estavam vivendo.

“Será que eles não vêem que também sou vítima desse caos” – pensou, e quase gritou aos quatro ventos, tamanho era o seu desespero. “Será que eles não vêem que eu também sou prejudicado, machucado, marcado por toda esta incapacidade do estado em lidar com esta situação”. “Será que eles não vêem que eu também estou adoecendo e morrendo diante de tamanha negligência”.
Ao fechar os olhos viu seu filho chorar. Chorar a perda do pai. Chorar a perda do seu herói. Então, chorou. Não por ele, mas, pelos seus. Chorou por sua família, sua esposa. Chorou pelo seu filho.

De repente várias pessoas entram na cela em que estava recolhido. Com um estilete artesanal no pescoço ele é retirado da cela, em meio a socos e chutes e amarrado de braços abertos junto à grade da cela como se fosse um escudo humano.

Então…

Então, ele ouve um barulho ensurdecedor seguido de gritos desespero antes de perder os sentidos.

As marcas que tem no corpo, tal qual as dores que sente, praticamente desaparece ao ver o sorriso do seu filho e da sua esposa. Tais marcas e dores não o preocupam mais.

O que de fato o preocupa, são as dores que sente na alma. Dores estas que talvez nunca hão de desaparecer.

Dias depois, ao voltar ao trabalho, nota que nada, nada mudou. E tudo está como antes. Tendo a certeza de que tudo o que viveu, poderá se repetir, e se repetir, e se repetir, e que só resta a ele orar e pedir a Deus para que quando se repetir, não se apresente de forma mais trágica.

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Por Marc Souza, Agente Penitenciário e Escritor – Diretor do Sifuspesp

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